Quando fez por volta de 30 anos de morte, monotonamente passados com uma rotina rigorosa, ela conseguiu um misto de permissão e coragem para sair sozinha. O mais velho que olhava por ela e tinha sido o responsável pela sua transformação era contrário a essa independência tão precoce, mas ele entendia que era outros tempos e que a vida acontecia rápido demais no século XX. Se esperasse os 80 anos que a tradição mandava, ela estaria tão perdida e anacrônica quanto qualquer ancião. E sua criança era uma pupila muito cuidadosa. Podia confiar nela.

Para essa criança entre os mortos, 30 anos já tinham sido cruéis com as suas memórias e afetos. Por onde ia, não encontrava fachadas familiares exceto em prédios tombados ou abandonados. Nenhum sinal dos lugares que gostava de ir quando estava viva. Com sorte, um bar ainda era um bar, mas havia mudado de nome, de nicho, de tipo de música. Não esperava encontrar rostos familiares, nem devia procurar por eles, mas ao menos o espírito daquele tempo preservado de alguma forma em uma nova geração de rebeldes. Não foi tão fácil quanto gostaria.

Ainda assim, era bom usar coturnos e andar de novo pelas ruas do velho centro. Envolta em sonhos de sucessos dos escritórios agora vazios, rodeada por construções mais antigas que ela, em uma sensação de silêncio e melancolia que era fora do tempo, um espírito mais longevo que o tempo dos mortos. Era uma amálgama da delícia de uma cidade tão bonita e do desespero da máquina do capitalismo que mastigava e cuspia só restos quebrados. Riqueza e miséria em cada esquina de uma maneira que não podia ser ignorada.

Queria ter sua câmera e bater fotos do chiaroescuro da noite, das texturas da cidade. Ela sentia alívio de não fazer mais parte daquele jogo. Um corpo morto não tinha receio de passar fome, frio ou necessidade, nem de ser machucado, ou assaltado, uma sensação que uma mulher sozinha não tinha em vida. Mas além do alívio, naquela noite, havia uma nostalgia pérfida. Sentia saudades dos seus sonhos de viva: uma carreira, um extenso trabalho de fotografia, uma casa, uma galera com desejo de revolução e mudança para colar junto e agitar uns corres.

Ela havia vindo para a capital correr atrás deles. A morte prematura cortou todos na raiz.

Era pouco depois da meia noite quando a morta decidiu voltar para perto do metrô. Sentou ali no largo da saída vendo o fluxo de gente ir e vir, correndo de volta para casa, pegando o último trem ou chegando para só pensar em voltar depois do sol nascer. Fingiu beber uma cerveja e esperou. Logo foi aparecendo sua turma, e havia algum conforto em perceber que algumas coisas ainda não haviam mudado: coturnos, roupas pretas, spikes. As bandas nas camisetas eram novas, mas as atitudes eram as mesmas. Andando em grupo, rindo, discutindo música, cinema e novelas com a mesma fluência que falavam de política.

O coração morto doía. Eram tão novas, aquelas crianças…

Foi seguindo a panelinha que chegou naquela garagem escondida numa rua lateral cheia de gente, praticamente fechada pela festa. As pessoas se aglomeravam em grupos, falavam alto, uma caixa de som tocava The Smiths. Ambulantes vendiam bebidas e lanches de isopores e dos porta malas de seus carros. Agora não se podia mais fumar dentro dos espaços, percebeu. As bitucas iam ficando pela sarjeta.

Lá dentro, a garagem dava em um porão onde havia um palco. Uma guitarra fazia um barulho sintético cacofônico e uma vocalista gemia com voz bêbada. Espremidos, os fãs balançavam o corpo, embalados pelo ritmo. O refrão deixou tudo mais barulhento, mais alto, mais bravo. A massa de pessoas suadas virou uma onda aos pulos. O pit explodiu num empurra empurra nervoso, uma violência contida no espaço e na força. A morta não conhecia a música, mas já sabia que iria se apaixonar pelo resto do show. Ela mesmo não suava, mas sua roupa ficou úmida e seu corpo frio se aqueceu no calor dos outros. Em pouco tempo estava colada na grade, repetindo o refrão que era berrado das caixas de som, sentindo a bateria e o baixo ecoando no corpo todo.

Porém antes do fim do show, alguém passou a mão pelas suas costas, na fenda de onde a renda do seu vestido deixava a pele à mostra e fez monstro dentro de si abriu os olhos. Ela não tinha saído para caçar, mas a fome se fazia presente e intensa, cheia de maldade. Na meia luz ganhava uma confiança cruel de que poderia agarrar aquele homem, fazer ele se ajoelhar, morder e beber como uma caixinha de suco, deixando só o resto esmagado no final.

Saiu dali antes que a sensação ficasse insuportável. Antes que a presa forçasse seu limite. Foi sentar na sarjeta e deixar o ar fresco da noite lavar seus sentidos da sede de sangue.

Foi quando ele chegou perto, se agachou ao lado, tocando no seu ombro sem dó nem reservas.

— Você precisa de um lugar para se acalmar.

A voz rouca e doce não fazia uma pergunta. O olhar escuro, tão bonito, num rosto simétrico demais, esculpido em argila escura, e o sorriso que era macio e elegante e destoava dos outros tão ordinários. Havia algo estranho e não humano ali, que ela só conseguia atribuir a uma coisa.

— Esse território é seu? — A moça disse um tanto trôpega na dicção, o susto ainda correndo no corpo.

— Ah, é, eu mantenho o lugar funcionando e tão seguro quanto pode ser.

— Desculpa, eu não sabia.

A morta recuou do toque, mas ele insistiu

— Não tinha como saber, né? — ele corrigiu.

A mão desceu do ombro e afagou o braço, o sorriso ficou mais largo. Ele tinha grandes olhos castanhos e as pálpebras pesavam deixando-os preguiçosos, escondendo qualquer intenção por trás desse jeito de felino satisfeito.

— Eu vou embora antes de te causar qualquer problema.

Ela ofereceu. Ele negou:

— Ainda é cedo. Tenho um lugar mais confortável e calmo para ficar até se sentir melhor. Qual seu nome?

A voz daquele que a havia criado veio severa na mente da sua criança. Fuja, vá para um local seguro, me chame. Era o ato sensato e seguro a se fazer, mas ela sabia que se seguisse essas instruções, daria diversos passos para trás na sua independência. Era a desculpa perfeita que o mais velho precisava para segurá-la por mais 10 anos em casa.

— Me chamo Mônica. Eu… Não posso ficar muito, tenho hora pra voltar.

O homem deu um sorriso ainda maior.

— Sou Lírio. Não se preocupe, eu te devolvo inteira.

Lírio segurou a sua mão e apesar da aspereza da pele dele, o toque era quente e tinha uma maciez por baixo da pele tosca.

A casa convertida em baladinha tinha um segundo andar que não era ligado ao primeiro por uma escada interna. Lírio pediu licença para uma galera encostada no portãozinho de ferro, destrancou-o e puxou Mônica pela escada de concreto e azulejos velhos, onde eles subiram com cuidado para não chutar vasinhos de plantas. Apesar da festa estar tão alta, a alvenaria já abafava muito do barulho.

Mônica se sentiu cruzando um portal mágico de filme de fantasia, viajando para realidades diferentes, ainda mais quando a porta da sala foi aberta e lá dentro era um contraste ainda maior com o exterior tumultuado e brutesco.

Dentro cheirava a incenso doce e a iluminação que ele acendeu era indireta, os móveis eram cinzas e azuis, havia uma decoração propositalmente escolhida para parecer um acidente fortuito resultado de boas decisões na escolha e disposição dos elementos. Objetos, tecidos e artesanato eram colocados em todo espaço disponível de maneira assimétrica e oblíqua para dar um ar de elegância pela harmonia no excesso, e não pela sobriedade.

Cortinas pesadas fechavam a janela e isolavam um pouco mais do barulho.

Lírio tirou as sandálias e deixou ali perto da porta. Mônica imitou, levando um momento para afrouxar o laço dos coturnos. Aí ele sentou num dos sofás como um cortesão sentaria num divã e fez um sinal para ela se aconchegar no sofá oposto.

Mônica fez isso e, de fato, só de estar ali, longe do cheiro de suor e de corpos quentes roçando o seu, o monstro da sede ficou mais calmo. Ele lamentou a caçada interrompida, mas entendeu que era melhor poupar energia. Havia algo perigoso na sala que demandava sua atenção e o planejamento da sua hospedeira, algo com a qual ele não conseguiria ajudar a lidar, só a lutar contra se fosse preciso.

— Melhor? — Lírio perguntou.

— Sim. Obrigada, — Mônica admitiu, um sorriso pequeno surgindo nos lábios pintados de vermelho.

Lírio não se vestia como as pessoas lá embaixo. Ele tinha um blazer de tecido brocado em tons de castanho e amarelo, chique demais para aquele ambiente, e calças de jeans preto que não estavam rasgadas nem decoradas com apliques.

E ele deixou ela olhar cada detalhe por todo o tempo que precisasse para tirar suas conclusões.

— Eu gostei muito do que você fez com o lugar, — Mônica disse depois, para preencher o silêncio, ser cortês e porque era isso que ela fazia em qualquer situação. Guiar a conversa, encantar clientes. — Foi bom achar ele. Me lembrou lugares que eu ia. Sabe, antes. Foi uma dose gostosa de nostalgia.

Ele concordou, satisfeito daquele mesmo jeito calmo e que parecia saber bem mais do que estava deixando aparecer.

— Ah. Isso é bom, né? — A voz macia disse. — Fico feliz. É um lugar importante pra mim.

— É seu tem muito tempo?

— Uns anos. Eu herdei do antigo dono…

— Não sei como era antes, mas eu gostei muito como é agora. O espaço tá super bonito, e eu reparei os lambes e as gravuras na parede. O ateliê que faz as imagens é muito legal.

— Ah, é. Eu encomendei a parede com eles.

A alma dos dois acendeu uma pequena luz com a afinidade no gosto de artes visuais. Falaram do ateliê, elogiaram os artistas, conversaram sobre as obras que tinham em casa. O tempo todo, Lirio ficou debruçado na direção dela, interessado. Derretendo o nervosismo dela com sua paciente atenção.

Mônica decidiu arriscar e ver o quanto conseguia descobrir dele.

— Vem muitos outros mortos aqui?

Lírio parou para pensar, os dedos desenhando a própria boca, guiando o olhar dela.

— Um a cada tantos meses, no máximo. Gente andando pelo centro e caçando, como você, imagino.

— Na verdade, eu só estava procurando um show pra ver. Eu queria curtir um tempo sozinha.

Aquilo fez a curiosidade dele se empertigar.

— Interessante. Os que passam aqui geralmente estão só procurando uma caçada fácil. Se não são problemáticos, eu deixo fazerem isso e logo vão embora. Estranhamente, não costumam voltar mais de uma vez.

— Ah, bem, sabe como é. Somos um tipo paranóico.

— Ah sim. São mesmo. — Ele levantou e foi buscar algo no interior escuro da casinha. — Imagino que você não beba cerveja, né?

— Não… Não quando não tenho de fingir.

Lírio voltou virando um gole numa garrafinha verde, e dessa vez sentou no mesmo sofá que ela, esticando os braços no encosto, confortável demais. Satisfeito demais.

Ela estava tão fria, mas ele irradiava calor.

— Oh. Achei que você era um dos meus… — Mônica admitiu, analisando ele melhor, assim, tão perto.

Os olhos castanhos dele tinham um brilho intenso e dourado, apesar de não haver uma luz amarela na sala.

— Não sou, não. Há quem diga que seu povo e o meu tem um passado em comum, mas não sei dessas coisas.

Lírio ficou parado de novo, deixando ela fazer seu estudo. Dessa vez, Mônica percebeu essa permissão. Ele queria que ela satisfizesse sua curiosidade dele, sem reservas. Se permitia ser uma caixinha quebra-cabeças para ela cutucar e achar o segredo.

Ela acenou. As palavras seguintes saíram apesar do bom senso, seduzida por essa licença.

— Eu… Eu não sei de nada a respeito de outros povos além dos mortos. Ninguém nunca me ensinou o que tem por aí, só a viver uma noite de cada vez, sem aventuras.

— Achei que os seus tinham a tradição de se ensinar essas coisas.

— Eu ainda sou muito nova e meu criador é… Ele gosta de fazer as coisas no seu tempo. Sem pressa.

Lírio concordou, entendendo. Ele parecia ser o tipo que entendia e compreendia tudo.

— Ah, bem, vocês têm muito tempo para descobrir as coisas sem pressa.

— A eternidade, me disseram.

Aquela nota de frustração na voz era mais do que ela deveria revelar.

— É, pode ser, — ele disse, debruçando mais perto, o dedo apontando para ela como quem dizia “eu te entendo”. — Mas só porque vocês têm a eternidade pela frente, não significa que tudo tem de levar uma eternidade para acontecer, né?

Mônica teria corado se seu sangue ainda circulasse normalmente no corpo.

— É frustrante. É enlouquecedor. — ela admitiu. Lírio concordou, tão compreensivo, com uma expressão no rosto de quem via a dor dela e compartilhava.

— Sinto muito.

Mônica bufou, o ar entrando de uma vez e saindo por impulso, não por necessidade. Tiques de um corpo que ainda se achava vivo.

— Não tem o que fazer. Só ser paciente. Minha vida inteira para ele é só uma fase, sabe? Eu sei que é difícil para ele considerar meu lado.

— É normal que os mais velhos esqueçam da dificuldade de ser mais novo. Só que… Você acha que perdeu algo no caminho? Entre antes e agora?

Que tipo de pergunta era essa? Mônica sentiu algo no peito doer.

— Muitas coisas… Tudo? — Ela murmurou com a voz trêmula e sentiu o sorriso nervoso se formar no rosto, um deboche da própria dor, — eu sinto que estou resistindo a um monte de noites inúteis esperando ele ter a bondade de me deixar viver de novo.

Lírio chegou mais perto e segurou a mão dela, tão pequena e fria e magra entre os seus longos dedos maiores e mais fortes. Ela viu pequenas manchas de tinta seca nas unhas, no pulso… Entendeu de onde vinham aqueles calos todos. Um artista, como ela tinha sido, ainda que em outra mídia.

— Deixa eu fazer essa noite valer a pena para você, então.

E de repente Lírio estava mais perto ainda e de novo tocou seu braço. O toque foi subindo, acariciando o seu pescoço, seu queixo. O monstro em Mônica abriu os olhos, ofereceu sua ferocidade para ela, mas apenas foi empurrada pro fundo de novo pela força de vontade da morta.

— Você não quer isso, é perigoso. — Mônica disse, sensata apesar da vontade assassina em si.

— E se eu disser que eu consigo me defender?

Lírio passou o dedo pela nuca, enrolando o cabelo dela nos seus dedos, envolvente. Ela fechou os olhos com um arrepio bom. Quando tinha sido a última vez que ela tinha ficado com alguém? 1988? Não ia fugir e deixar aquela data assombrando sua memória. O homem segurou o rosto redondo e trouxe o seu perto, a respiração quente ardendo em contraste. Mônica deixou. A boca de Lírio raspou na pele da bochecha fria enquanto a dela fazia o mesmo em espelho sentindo a aspereza da barba feita há alguns dias.

Se encaixaram com fome, mas sem nenhuma ansiedade. Um beijo macio e lento, as línguas testando a boca um do outro. Lírio era bem mais alto e foi se curvando sobre ela, cercando com os braços. Mônica se segurou nele, procurando apoio para não se perder, sentindo a carência de quem não tinha conforto e segurança em lugar algum há anos.

Ela disse a si mesma que podia fingir por uma hora que as coisas eram diferentes. Puxou a saia apertada do seu vestido para cima da coxa e subiu no colo daquele moço bonito. As mãos dela se cruzaram atrás da nuca de Lírio e Mônica tombou a cabeça para fazer aquele beijo lento ficar mais agressivo. A morta raspou as presas no lábio de baixo dele, lembrando-o do que era. A nota de perigo tirou uma risada arfada dele.

— Pensa bem no seu desejo…

— Eu não vou fazer isso com você.

— Ah não, veja bem, eu não me importo, mas pode ser perturbador.

Lírio tinha aquela diversão constante na voz. Era por causa do segredo que ele queria que ela descobrisse? Ou porque cantava vitória por ter seduzido um monstro a ser sua amante pelo resto da madrugada?

Mônica fez ele parar de passar o nariz pelo seu pescoço e segurou o rosto dele para que olhasse-a nos olhos.

— Por que perturbador? — Sua voz saiu tão séria, tão cansada de respostas mal dadas.

Mas Lírio tinha um sorriso manso de quem adorava ser uma esfinge.

— Quer aprender algo novo hoje? Bebe meu sangue.

O desafio atiçava a sede. Atiçava a curiosidade e o monstro dentro dela. Lírio abriu o blazer, mostrando a pele nua por baixo. O peito macio e dourado, os fios finos de cabelo castanho. Mônica sentiu tudo que ela era vibrar com a ansiedade do mistério.

Ela se debruçou, puxando-o para si pela roupa brocada. Passou a língua na pele, sentindo o salgado do suor. Fechou os dentes num tanto de pele macia e as presas foram ao fundo, quebrando a superfície.

Ela não acreditava no sobrenatural até ter tido o primeiro gosto de sangue. Mas a mordida sempre foi uma experiência surrealista que não era explicável sem alguma nota de metafísico. O sangue vinha à tona, empurrado pela própria circulação da vítima, e fazia o paladar explodir de sensações. Cada pessoa tinha suas próprias camadas de sabor que existiam além do gosto férreo, e eram sensações táteis, olfativas e gustativas causadas pelos sentimentos, pela personalidade e o espírito daquele sendo consumido. Havia mortos que explicavam os sabores como uma manifestação física da alma sendo consumida.

A questão é que não era apenas algo sublime como um prato extremamente bem preparado. Era arrebatador como uma viagem de drogas. Como transes meditativos e hipnóticos. A realidade se dissolvia no momento enquanto corpo e mente giravam no turbilhão de choques, de imagens, de cheiros.

Mas Lírio estava além disso. O sangue dele era efervescente na boca e doce, tão doce. Mônica podia jurar que ouvia pássaros e flautas, o burburinho de um rio correndo. Ela podia jurar que sentia os raios de sol passando por galhos e aquecendo sua pele que não sentia nada do tipo há décadas.

Ela se afastou em choque, mas era apenas o começo das surpresas. Olhos dourados esperavam por elas, e um rosto que não era mais exatamente humano. O sorriso era tão parecido, mas a boca e nariz tinham um desenho estranho, focinesco. O cabelo agora aparecia comprido e cacheado, e longos chifres saiam da cabeça, desenhando uma espiral de cada lado. Não só ele, mas o quarto em que estavam também tinha se metamorfoseado, e agora era vermelho escuro, iluminado numa luz onipresente quente e alaranjada.

Algo se moveu no canto da vista. Uma escultura de vidro viva, imitando uma cobra, se arrastava por almofadas de veludo vinho e fios de ouro. Seus olhos âmbar encaravam Mônica, e a fina língua saiu sibilando da boca entreaberta.

Lírio segurou a cintura da pobre morta, centrando-a no meio do medo.

— É assim que você vê o mundo? — Ela conseguiu perguntar.

— Não é apenas o que eu vejo. É assim que meu mundo é.

Mônica deixou a cabeça cair para trás, seguindo o desenho das cortinas de veludo bordado até o lustre vivo, uma cabeça angelical que cantava enquanto emanava luz.

E por um segundo ali, Mônica esqueceu de todo o resto.

— Eu… Eu quero ver mais.

Lírio sorriu, abraçando, beijando o queixo macio.

— Não se preocupe, eu te mostro.

Uma vampiro se senta no colo de um sátiro. Ela olha para cima, encantada, onde voa uma criatura de vidro estranha, uma cabeça com asas e longos cabelos. A boca da vampira está suja de sangue, e no peito do sátiro há as marcas da mordida. Gotas de sangue flutuam para fora do machucado, ao invés de escorrer pela pele. Ao redor há outras criaturas mágicas: serpentes aladas, uma fada inseto.

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